segunda-feira, 24 de julho de 2017

EPIFANIAS #26

26

  Ela está comprometida. Dança com eles no salão — o vestido branco levanta-se levemente enquanto ela dança, um ramo branco no cabelo; olhos ligeiramente desviados, um ténue brilho na bochecha. A sua mão na minha por um instante, a mais suave das mercadorias.
— Você raramente vem aqui agora. —
— Sim, estou a tornar-me numa espécie de recluso. —
— Vi o seu irmão há dias . . . . . . Ele é
     muito parecido consigo. —
— A sério? —
   Ela dança com eles no salão— calmamente, discretamente, não se entregando a ninguém. O ramo branco amarrota-se enquanto ela dança, e quando ela fica na sombra o brilho é ainda mais fundo na sua bochecha.


James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

DOIS LIVROS DE SIMONE WEIL



   Entre toda a quinquilharia que tem vindo a lume arrastada pelo centenário da Revolução Russa de 1917, dois livros de Simone Weil (n. 1909 – m. 1943), publicados quase em simultâneo, atraem-nos o foco para o essencial, até pela crítica da União Soviética concebida numa fase de terríveis conflitos internacionais que apelariam mais a sentimentos de simpatia pela Revolução do que de antipatia. Sucede que no pensamento de Simone Weil tais sentimentos foram ultrapassados pelo exercício de uma reflexão crítica autónoma e, acima de tudo, expurgada de qualquer engajamento colectivo. De origem judaica, próxima do comunismo antiestalinista, militou no movimento anarquista, chegando a alistar-se numa milícia da Coluna Durruti no decorrer da Guerra Civil Espanhola. No entanto, se o sindicalismo revolucionário exerceu forte influência nos seus escritos de filosofia política, menos influência não terá exercido um Cristianismo de tipo místico de que se aproximou sem nunca chegar a converter-se.
   No prefácio a Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos (Antígona, Julho de 2017), texto breve redigido numa fase final da vida, pela primeira vez publicado na revista La Table Ronde (Fevereiro de 1950), Júlio Henriques sublinha o modo como a tradição anarquista e as ordens monásticas inspiram, nesse texto, uma negação dos partidos como forças do bem. Tais fontes concorrem na obra de Weil para uma concepção do mundo algo pessimista que situa a existência humana numa experiência do sofrimento e da humilhação. Esta concepção é deveras evidente nas Reflexões Sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social (Antígona, Junho de 2017), iniciadas com uma crítica do marxismo da qual resulta um completo esvaziamento da palavra revolução: «A palavra revolução é palavra em nome da qual se mata, pela qual se morre, pela qual se enviam para a morte as massas populares, mas que não possui qualquer conteúdo» (p. 33). A prová-lo, para a autora, está a «Revolução Russa, que, após haver efectivamente conseguido fazer desaparecer uma certa forma de opressão, assistiu impotentemente à instalação duma nova opressão» (p. 35).
   Contextualizando, a dúvida reside em saber como pode o homem libertar-se da opressão exercida pelo mundo do trabalho. Como pode o homem ser livre? O problema da liberdade é aqui o tema essencial, na sua articulação com as exigências do trabalho e com os factores de servidão que limitam o ser humano pela força não de necessidades individuais, mas de lutas pelo poder no seio das colectividades a que cada indivíduo pertence. O passo que demos de uma economia primitiva para uma economia sofisticada foi o mesmo que nos levou do bem-estar proporcionado pela satisfação das necessidades básicas ao culto do supérfluo, estimulado por uma luta pelo poder, eufemisticamente apelidada de concorrência, que, em vez de emancipar, humilha e oprime. «A Revolução Russa, graças a um singular conjunto de circunstâncias, parecia, na verdade, trazer consigo algo de inteiramente novo; os privilégios que veio suprimir não possuíam já, porém, qualquer base social, com excepção da tradição; e as forças reais, a saber, a grande indústria, a polícia, o exército e a burocracia, longe de haverem sido destruídas pela revolução, atingiram, graças a ela, um poder desconhecido nos outros países» (p. 64).
   Traçado o diagnóstico, exige-se um Quadro Teórico Duma Sociedade Livre. Simone Weil assume os contornos utópicos do seu quadro, transportando-nos para uma hipótese de mundo onde os conceitos de “liberdade perfeita” e de “liberdade autêntica” contrastam com a realidade imperfeita e de aparências a que vamos submetendo paulatinamente as nossas vidas. À sua dimensão, este livro ocupa-se dos pilares sobre os quais pode ser erigida uma sociedade perfeita, isto é, de homens livres. Platão chamou-lhe República, Tomás Moro deu-lhe o nome de Utopia. É ainda no campo do idealismo e do utopismo que se colocam estas questões, apesar de estarmos perante uma autora a quem é impossível negar falta de coerência entre pensamento e acção. Para compreender as angústias dos operários, ela não se limitou a contemplá-los à distância. Trabalhou, ela própria, como operária. E foi dessa experiência que trouxe a sua imagem do “operário qualificado”, ser de uma civilização para a qual ainda olhamos como o burro olha para o palácio. Dotado de pensamento esclarecido e de reflexão metódica, este trabalhador é o princípio base de uma sociedade constituída por homens livres e fraternos. Não estaremos ainda aqui no domínio de um ideal de "homem novo" deveras estranho ao mundo em que vivemos?
   Talvez para essa estranheza concorra uma organização social baseada na chamada democracia representativa, a qual apenas promove os partidos políticos enquanto máquinas de estupidificação do indivíduo. Na simplicidade da Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos vislumbramos, antes de mais, uma inigualável fé no pensamento enquanto princípio libertador e emancipador do ser humano. Ora, na opinião da autora de L’Enracinement, o carácter dos partidos opõe-se na sua génese ao pensamento livre: «Um partido político é uma máquina de fabricar a paixão colectiva. // Um partido político é uma organização construída de maneira a exercer uma pressão colectiva no pensamento de cada um dos seres humanos que dele fazem parte. // A finalidade principal, e, em última análise, a única finalidade de qualquer partido político, é o seu próprio crescimento, e isto sem nenhum limite» (pp. 36-37) Estávamos na época dos totalitarismos, os sistemas de partido único aniquilavam a possibilidade de debate, mas a rigidez interna dos próprios partidos impunha aos seus membros uma concordância acrítica intolerável numa sociedade livre. Weil afirma que o mecanismo de opressão típico dos partidos foi introduzido pela Igreja Católica, comparando-os a pequenas igrejas armadas «com a ameaça de excomunhão» (p. 59). O que fica por explicar é o lugar da proibição numa sociedade livre. As proibições a que o texto alude são conciliáveis com a liberdade reconhecida aos indivíduos para se organizarem como bem entendem? À supressão dos partidos políticos não corresponderia uma diminuição do interesse individual pela vida colectiva? E, em consequência, uma diminuição do debate de ideias? Estaria melhor o mundo quando os partidos políticos não existiam? Ou quando, em momentos históricos situados, foram, lá está, proibidos? 

ESPÍRITO CEGO


   Temos de reconhecer que o espírito cego de partido nos torna surdos à justiça e chega a levar pessoas honestas à mais cruel obstinação contra inocentes. Temos de o reconhecer, mas ninguém pensa em suprimir os organismos que produzem semelhante espírito.
   E, no entanto, os estupefacientes são proibidos. 
   Existem, todavia, pessoas que se abandonam aos estupefacientes. Mas haveria ainda mais se o Estado organizasse a venda de ópio e de cocaína em todas as tabacarias, com cartazes publicitários para encorajar os consumidores.
   Tira-se daqui a conclusão de que a instituição dos partidos parece bem constituir um mal quase sem mistura. São maus nos seus princípios, e maus nos seus efeitos práticos.
   A supressão dos partidos seria um bem quase puro. É eminentemente legítima em princípio e apenas parece susceptível de trazer, na prática, bons efeitos.


Simone Weil, in Nota Sobre a Supressão Geral dos Partidos Políticos, trad. Manuel de Freitas, pref. Júlio Henriques, Antígona, Julho de 2017, pp. 61-62.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

PARCERIAS


Vinícius de Moraes fazia milagres com aquela barriguinha.

*

Tom fazia milagres com a barriguinha do Vinícius.


Tó Carlos, in Frases Namoradeiras, Tea For One, 2015, pp. 13-14.

ERNST LUDWIG KIRCHNER


Nasceu no dia 6 de Maio de 1880, em Aschaffenburg, Alemanha. Estudou arquitectura em Dresden e pintura em Munique. Seduzido pelo Neo-Impressionismo, juntou-se a Fritz Bleyl, Erich Heckel e Karl Schmidt-Rottluff na fundação da associação Die Brücke. Mudaram-se de Dresden para Berlim em 1911, consolidando um movimento de renúncia às convenções em benefício de uma maior subjectividade.



O advento do denominado Expressionismo Alemão, nomeadamente da Alemanha do Norte, ficou assim associado ao Die Brücke, extinto aquando do início da I Grande Guerra. Kirchner alistou-se como voluntário, sendo dispensado do exército devido à sua precária condição de saúde. Os nervos eram frágeis.




Mais frágeis ficaram quando os nazis purificaram os museus afastando tudo o que manifestasse resquícios de modernismo. Os quadros de Kirchner passaram a figurar na lista dos degenerados, o pintor na lista dos "maluquinhos". Expulso da Academia das Artes da Prússia, colapsou. Suicidou-se a 15 de Junho de 1938. 


(clique nas imagens para ver melhor)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RACISMO EM PORTUGAL

   De quando em vez vem à baila o tema do racismo. Será Portugal um país racista? Mas que raio de dúvida! Claro que é. Quem souber de um país que tenha sido colonizador e não seja racista, atire a primeira pedra. Mas o que é um país racista? A segregação racial, que até há muito pouco tempo era uma realidade portuguesa, desapareceu (a social ainda é). Nos Estados Unidos da América, esse país da Estátua da Liberdade, foi lei. Bob Dylan canta sobre o assunto. Fizemos fortuna no tráfico de escravos, ora. Isso passou? Mais ou menos. As leis domesticaram-nos a maldade, fomos obrigados a baixar a bolinha. Portugueses emigrados em países como a Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Polónia, queixam-se do racismo desses países. Ainda há tempos, um tipo que conheço de uma transportadora tentou fazer vida no Luxemburgo. Veio de lá a bufar cobras e lagartos contra o racismo dos cabrões. De novo instalado ao volante do seu TIR, sente-se à vontade para dizer que não gosta de pretos. Só de pretas. E ri. Ciganos, nem vê-los. Nem ciganas. 
   Não sei se quem por aqui passa estará recordado deste post sobre um cigano que andava à procura de trabalho e foi baleado por um agente da PSP: «Foi alvejado por um agente da PSP que depois de o atingir na cara, levando-lhe parte da dentadura, rematou o gesto com a seguinte sentença: “Tenho um ódio aos ciganos, e à vossa raça, que se pudesse matava-os a todos”. O Tribunal de Beja condenou o agente com uma pena suspensa de um ano e três meses de prisão». Pena suspensa, como no caso dos trafulhas da Universidade Independente. Os ciganos são vítimas especiais do nosso racismo, do nosso e do resto do mundo. Vivem lá na deles e a malta não gosta, quer os ciganos civilizados. Como quis os índios até dar cabo deles. Sim, claro que somos racistas. Até porque somos do mais parvo que possa haver. Homo Sacer e os Ciganos, de Roswitha Scholz, seria leitura recomendável por estes dias. 
   Infelizmente, não tenho amigos do peito que sejam pretos. Nem ciganos. Só conhecidos e vizinhos. Gostava de ter amigos pretos e amigos ciganos para poder dizer que não sou racista, assim como um gajo que é amigo de paneleiros diz que não é homofóbico. Dá sempre jeito ter amigos das minorias por perto, para credibilizarem uma pessoa. O mais que tive foi one-night stand com uma mulata. E toda a vida vivi junto de ciganos. Brinquei na infância com ciganos, cresci a ver o meu pai fazer negócio com ciganos (vendia-lhes monos que eles depois revendiam nas feiras), moro junto a um bairro que é por aqui conhecido como Bairro dos Ciganos. Infelizmente, nunca tive problemas. Gostava de ter tido, para poder despejar o meu ódio nessas raças imundas. Mas nunca tive. Como é que Camões de referia aos indianos? 
   As únicas vezes que fui assaltado foi por gajos brancos, um deles até bastante loiro. Foi no Bairro Alto. Comprei droga algumas vezes, mas sempre a filhos de boas famílias. Alguns com negócios abertos insuspeitos numa sociedade que acolhe sempre bem os seus filhos mais produtivos. Tenho tido azar na vida, sempre que sou enganado, ludibriado, roubado, sempre que me vão ao bolso, sempre que fui traído, foi por tipos decentes. Alguns até bastante católicos. Pelo menos fizeram o crisma e vão à missa. Num país com tantos trafulhas à solta, não deixa de ser admirável que as pessoas continuem a destilar os seu ódios sobre minorias. Há razões objectivas para que assim seja, claro. Desde logo, serem minorias. Depois, no caso dos ciganos, são quase por regra uma minoria desprotegida pela baixa escolaridade. Um burro adora dar coices noutro burro. Um tipo com o 12.º sente-se um doutor ou um engenheiro quando dispara contra "a ciganagem que mal sabe ler e escrever". Esta altivez dos burgessos é coisa muito nossa, da qual não nos livraremos assim tão facilmente. 
   Os meus amigos sabem que se há tema que me leva aos arames é o do racismo, sobretudo contra ciganos. Estes estão em todos os meus livros por razões de afecto e de admiração que não cabe aqui esclarecer. Prefiro partilhar um conto que publiquei num pequeno volume intitulado Call Center (Companhia das Ilhas, Junho de 2014), na esperança de que possam encomendá-lo (é mentira, já não tenho esperança alguma):

ÁRABE

   Um árabe foi assassinado no meu bairro. Alguém desconfiou dos ciganos. Sempre que algo inusitado acontece no meu bairro, alguém desconfia dos ciganos. E sempre que alguém desconfia dos ciganos, todas as suspeitas recaem sobre os ciganos. Sucede que o árabe assassinado era cigano. Na perspectiva dos ciganos, este pormenor excluía-os do grupo dos principais suspeitos. Por outro lado, na perspectiva dos restantes moradores, era precisamente este pormenor que mais contribuía para a desconfiança recaída sobre os ciganos. Toda a gente sabe de variadíssimas histórias de retaliações familiares entre a comunidade cigana, diziam os restantes moradores. Histórias que não são um atributo exclusivo desta etnia mas nela se revelam muito mais frequentes, explicavam os especialistas. À excepção dos guineenses, rematavam os restantes moradores.
   No decorrer das investigações, foi claro que as suspeitas dos investigadores se inclinavam para a versão dos restantes moradores. Curiosamente, um desses moradores era guineense. Precisamente o mesmo que reparou no facto do detective responsável pela investigação ser, ele próprio, de etnia cigana. Isto gerou algum burburinho junto da comunidade. Se por um lado não podiam os ciganos queixar-se de discriminação racial, por outro lado também não podiam os restantes moradores garantir a imparcialidade nas investigações.
   As pessoas começaram a discutir a pertinência daquela opção. Gerou-se um grande debate nacional em torno do tema, com entrevistas para as televisões, artigos de opinião publicados nos jornais, pareceres em linha aberta nas rádios de todo o páis, programas em directo com vários convidados. Foram criadas associações de defesa de diversos pontos de vista, conforme estes fossem a favor ou contra o que quer que fosse na questão em debate, inclusivamente a existência de pontos de vista. O tema, que ficou por encontrar a luz amena de uma solução, ainda hoje é motivo de inflamadas discussões.
   Quanto ao árabe assassinado no meu bairro, posso garantir que era de etnia cigana. E que foi assassinado no meu bairro.


Henrique Manuel Bento Fialho, in Call Center, com ilustração de Bárbara Fonseca, Junho de 2014, pp. 17-18.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

ONTEM LÁ EM BAIXO NO CANAL


Dizes que tudo é muito simples e interessante
isso torna-me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
estou tão aborrecido
é quase como ver um mau filme
se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
valha-nos deus que não é nada no coração
nada relacionado com gente mais interessante do que eu
yak yak
que pensamento divertido
como pode alguém ser mais divertido que o próprio
como pode alguém não ser
podes emprestar-me o teu quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência de prata
se não se pode ser interessante pelo menos que se seja uma lenda
(mas odeio essa trampa toda)


Frank O'Hara (n. 27 de Junho de 1926, Baltimore, USA - m. 25 de Julho de 1966, Fire Island, Nova Iorque, USA), in Vinte e Cinco Poemas à Hora do Almoço, trad. José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Março de 1995, p. 95.

LEI DA ROLHA

Metam a rolha no cu, talvez façam menos merda. Pardon my French.

MESES OU ANOS OU DÉCADAS

O desfecho da comissão parlamentar de inquérito à CGD gerou um episódio que começa por ser inacreditável, e que acabará por ser carimbado como burlesco ou trágico. Inacreditável porque não se acredita que o PS fosse para a votação do relatório – ainda por cima, e antes de tudo, dadas as questões em causa e sua notoriedade – sem saber onde estavam os deputados envolvidos, suplente incluído. Burlesco se a causa tiver sido a incompetência do grupo parlamentar. Trágico se tivermos assistido a uma encenação dos socialistas para obterem exactamente este resultado, o chumbo do relatório. Para clarificar esta última hipótese teremos de esperar pela conclusão das investigações judiciais à Caixa, algo que pode demorar meses ou anos.


Valupi, aqui.

Hhmmmmmm


Por causa de umas borlas para ir ver a bola? 
(o indicador dá voltas na ponta do nariz)

terça-feira, 18 de julho de 2017

MORALISTAS VULGARES


Os moralistas vulgares queixam-se de que o homem apenas é movido pelo interesse pessoal; prouvera que assim fosse! O interesse é um princípio de acção egoísta, mas limitado, razoável, do qual não podem advir males ilimitados. A lei de todas as actividades que dominam a existência social é, pelo contrário, e excepção feita às sociedades primitivas, que cada um nela sacrifica a vida humana, sua e alheia, por coisas que apenas constituem meios para viver melhor. Tal sacrifício reveste diversas formas, mas tudo se resume na questão do poder. O poder constitui, por definição, apenas um meio; ou melhor, possuir uma forma de poder consiste simplesmente em possuir meios de acção que ultrapassam a força restrita de que um indivíduo isolado pode dispor. A busca do poder, porém, exactamente porque lhe é impossível atingir o seu objectivo, exclui toda a consideração de finalidade e acaba por, numa inevitável alienação, ocupar o lugar de todos os fins.


Simone Weil, in Reflexões Sobre as Causas da Liberdade e da Opressão Social, trad. Maria de Fátima Sedas Nunes, Antígona, Junho de 2017, pp. 51-52.

TALVEZ A DÚVIDA



   Tenho um cão com cerca de dezassete anos de vida, está surdo e praticamente cego, caíram-lhe parte dos dentes, mantém um apetite voraz e um faro razoável, e apesar de lhe faltar força nas pernas passa o tempo a andar de um lado para o outro completamente desorientado. Dorme muito, deixou de brincar, faz as necessidades por onde calha, sem critério que se compreenda a não ser o de se ir orientando no espaço. Não me parece que tenha dores, raramente se queixa. Tivesse dores, a opção seria o abate. É assim que se faz com os animais, o abate liberta-os das dores. Com os homens é diferente. Não se abate um homem para o libertar das dores, excepto em casos excepcionais. E mesmo nesses casos a dúvida persiste, a dúvida moral, a dúvida ética, a dúvida deontológica. A dúvida, diga-se, antes de ser o princípio fundamental do método cartesiano para chegar à verdade — cogito, ergo sum —, é uma prorrogação do sofrimento. Porque a dúvida inquieta, desassossega, obriga o pensamento a uma ginástica árdua com consequências lesivas para o corpo de quem duvida.
   Não sei se o meu cão alguma vez teve dúvidas, suponho que nos distingamos dos animais, em parte, por duvidarmos. Os cães desenhados por Bárbara Assis Pacheco para ilustrar Talvez a Dúvida (Douda Correria, Maio de 2017), de Rui Almeida (n. 1972), não parecem perturbados por grandes dúvidas. Ao contrário do célebre cão de Alberto Giacometti, apresentam-se quase invariavelmente de cabeça e rabo erguidos, estão bem alimentados, em posições confortáveis, ora lambendo-se, ora contemplando a natureza. Um deles, na capa, está a lamber-se sobre um monte de livros. O cão aparece num dos poemas deste livro como «Prenúncio de tropeço em trânsito para / A casa aberta onde custa chegar», é a imagem de um animal «indiferente a tudo» que por vezes se nos assemelha no ridículo. Este nós plural determina paradoxalmente o curso dos versos, pois apesar do tom discursivo dos poemas, ao jeito de uma homilia para destinatários incertos, é na primeira pessoa que aqui se discursa. A humanidade é mais dissemelhante do que o nós de seres «azedos, angustiados e tristes» a que o poeta se dirige, logo no primeiro poema, com um propósito clarificador: «Não nos iludamos».
   Não obstante o propósito cartesiano, a ele voltamos, o racionalismo cai por terra abatido pelas emoções. É interessante notar como tão paradoxais são estes poemas, desde logo na sua aparência formal. Rui Almeida nunca descurou a forma na sua poesia, começada a publicar em 2009 com o livro Lábio Cortado. Todos os poemas de Talvez a Dúvida são compostos por quatro quintilhas, mas o ritmo, por vezes pautado por rimas internas ou palavras foneticamente próximas, permitiria quebras de verso que ofereceriam à leitura uma menor rigidez. Desinteressado dessa facilidade, o autor prefere submeter os versos a uma forma que enrijece o diagnóstico deste nós humano em contraponto ao nós canino: solitários, ansiosos, desesperados, marcados pela «ausência de coragem», pela «falta de vontade», iludidos, «vagas entidades», injustos, escravos da rotina e do «Absurdo quotidiano», perdidos. Em suma, radicalmente pessimistas: «A paz é um lugar impossível, absurdo. Não / Vale a pena ser fiel a qualquer raiz nem / A qualquer silêncio consolador. Nem rir».
   Na sua eterna busca de verdade, esta poesia peca por defeito, ou seja, não reconhece no humano o dom da indiferença canina, negando ao cão a faculdade da dúvida. Sem esperar justiça da poesia, questiono-me se fará sentido um diagnóstico deste tipo. A poesia é ainda aqui torrente emotiva, apesar da tendência aforística inerente a estes poemas. É-nos difícil vislumbrar nela o belo e o sublime, embora desconfiemos que essas sejam categorias do pensamento estranhas a um poema que se proponha claro. «Não nos iludamos», ainda que insistamos nas mesmas ilusões, por detrás da aparência derrotada esconde-se o heroísmo da permanência, da dor suportada sem o apaziguamento dos «alívios de circunstância» (paraísos artificiais?) ou a solução final do abate. Há uma espécie de elogio da dor nestes poemas que encalha na ideia de sacrifício, a dúvida é a de Cristo na cruz face ao desamparo e ao abandono. «No entanto, nas mãos / Permanece-nos um pássaro estranho». Que pássaro é este? A esperança? A fé? O espírito santo? «Talvez qualquer pergunta seja sábia / Por causa do medo e há demasiadas / Formas de isolamento — a nossa é / Apenas mais uma, apenas a nossa».
   A dúvida vem depois de cima, menosprezamo-la, talvez, como se afirma num dos poemas, a dúvida «Aproxima-nos da precariedade, / Dá-nos a perceber limites», à maneira de Descartes acabará por levar-nos a Deus. Eis a redundância a que sempre nos leva a brevidade da vida, a efemeridade do belo na terra, sobretudo quando recusamos a luz do riso, quando fechamos a porta à alegria passageira, à sombra, quando não nos contentamos com o ritmo oscilante dos humores que é isto de andar por cá. Ainda e sempre a angústia, mas por lhe faltar o gozo da terra. Outros poetas satisfazem-se com o passar das estações, com o pólen, com a flor que nasce da flor, com a semente regada da qual brotam árvores que dão fruto, com o fruto caído na terra, transformado em estrume, a morte fertilizadora, outros poetas recusaram olhar para o cão como um animal doméstico, descobrindo dentro de si o gene selvagem que tudo relativiza, sobretudo a linguagem, sobretudo a tese, a teoria, o teorema a partir do qual colocamos sobre nós ideias de justiça e de beleza que não passam disso mesmo, de ideias, conquanto as pronunciemos em maiúsculas ou minúsculas. O cão que se lambe sobre um monte de livros é mais humano ou animal? Será metáfora? Será imagem? Deixemos ao improviso a natureza do improviso, por onde quer que sigamos a dúvida acompanhar-nos-á, essa a única certeza:

Aos quarenta e tal damo-nos conta
De que nascemos no país errado,
Numa margem mais fria do que a nossa
Capacidade de sentir. A meio
Da vida, ou do que ela possa ser,

Damos por nós atentos ao que se passa
Por esse mundo fora, usamos o
Sentido crítico, temos opinião
Sobre um pouco de tudo e arrumamos
Pedaço a pedaço em aproximações

Discretas a decassílabos. De
Nada nos vale a força e o trabalho
Com que limpamos a casa onde moramos
Se o que dizemos se repete vezes
Sem conta em tom monocórdico e sombrio,

Se a nossa voz se cansa de tanto arderem
Florestas de árvores secas. Gota
A gota, as cisternas se esvaziam e
Os medos se transformam nesta chuva
A cair espaçadamente sobre nós.


segunda-feira, 17 de julho de 2017

PENSAR IR AO CINEMA


Ocorreu-me a possibilidade de ir ao cinema. Afinal, estou de folga. Não vou ao cinema há meses. Há um ano? É bem provável. Mas ver o quê? Procuro alternativas no cartaz e dou com o cenário ao alto. Acho que vou ficar por casa. Assim como assim, sempre posso beber vinho em vez de ouvir os outros a mastigar pipocas. 

NO MELHOR PANO

Este post do Ricardo António Alves não tem sentido algum. E é precisamente por isso que merece ser alvo de uma crítica "inquisitória", que é uma maneira de dizer censura sem censurar. Quando alguém crítica veementemente as afirmações de outrem está a fazer uso de um bem precioso, a liberdade de expressão sem a qual nenhuma crítica seria possível. Ora, assim como está mal privar alguém de afirmar o seu pensamento, exercitando a sua liberdade de expressão, também estaria mal privarmo-nos de criticar esse pensamento discordando dele. Tão grave quanto a censura é a autocensura, sobretudo em democracia. Esta obriga-nos a um sentido crítico amplo e aberto, disposto à contradição e à mais feroz das antíteses. Sempre em busca de uma síntese, creiamos mais ou menos na sua possibilidade. Não podemos é calar-nos perante a ignomínia e a estupidez. António Gentil Martins foi ignominioso e estúpido ao produzir as afirmações que produziu sobre homossexualidade e as chamadas barrigas de aluguer. Por que não dizê-lo? Por ter livrado da morte milhares de crianças? Por ser um conceituado cirurgião? Isso deverá isentá-lo da crítica feroz quando proferir ordinarices como as que proferiu ao Expresso? Não creio, mais ainda por terem as suas afirmações especial relevância numa sociedade conservadora e tacanha como a nossa. Os pergaminhos católicos do Doutor Gentil fazem estragos. Não é apenas uma expressão bastante infeliz aquilo que vem incitando a “nova inquisição”, a qual, reconheça-se, tem apesar de tudo fogueiras mais confortáveis e anódinas do que as medievais. Daqui a uns dias ninguém se lembrará desta entrevista, muito menos de quem foi Gentil Martins. Mas por estes dias não podemos senão declarar o maior repúdio possível para com mais uma exibição pública de homofobia. 

MISTÉRIOS

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de Outubro de 1844, teve uma carreira militar bastante curta, viu-se obrigado a uma vida isolada muito por razão das suas convicções, foi um compositor mediano, viajou regularmente, a determinada altura viveu mesmo um intenso nomadismo mudando de residência várias vezes, falhou como professor e com as mulheres, fracasso de que é famosa a relação mantida com a fascinante Lou Salomé, viveu em busca de uma liberdade que lhe deu cabo da saúde, manteve com a irmã uma relação conflituosa, chegou a experimentar os apaziguamentos do ópio e a pensar no suicídio, acabou por colapsar mentalmente pelos anos de 1889, vindo a falecer no dia 25 de Agosto de 1900. É conhecida e por muitos citada a influência que exerceu sobre o escritor norueguês Knut Hamsun (1859-1952), apesar do antigermanismo do filósofo contrastar com o germanismo acirrado do romancista, a ponto de este ter oferecido a Goebbels a medalha que recebeu por ocasião da atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1920. Os noruegueses não lhe perdoaram. Hamsun foi ostracizado após a II Grande Guerra, morrendo num asilo com a acusação de traidor à pátria a pesar-lhe sobre os ombros.  
É difícil não pensar em Nietzsche depois de sermos apresentados a Johan Nilsen Nagel, a personagem central de Mistérios (Cavalo de Ferro, Setembro de 2013). Publicado em 1892, Mistérios transporta-nos para uma pequena cidade costeira da Noruega no ano de 1891. É a essa cidade que chega um homem misterioso no dia 12 de Junho, em pleno Verão. Nagel está prestes a completar 29 anos, tem ombros largos, veste de um modo algo excêntrico, comportando-se de acordo com a indumentária. Também ele tem uma irmã, a qual não participa nesta ventura senão pela ausência, também ele é um músico sofrível, diz-se natural de Finmark, apesar de ter vivido em vários locais, apresenta-se como agrónomo, embora a páginas tantas lhe fuja a boca para a verdade: «Sou um filósofo que nunca aprendeu a pensar» (p. 136). Verdade? Será avisado acreditar nas suas confissões? Tudo em Nagel nos deixa em estado de alerta, ele é um homem sob suspeita, nós somos como os habitantes da cidade onde se instala, «cidadezinha de treta» habitada por gente coscuvilheira e hipócrita. As suas palavras denotam um claro desprezo pela humanidade em geral: «as pessoas eram sempre as mesmas; a mesma vulgaridade, a mesma hipocrisia» (p. 255). Não obstante, manifesta uma estranha generosidade para com os mais fracos. Uma generosidade que vai muito além da caridadezinha desprezível dos hipócritas, uma generosidade de tipo kantiano, isto é, que não procura ser recompensada senão por ser ela mesma a sua própria recompensa. 
São objecto da sua generosidade o homem a quem todos chamam por desprezo de Anão e Martha Gude, uma quarentona solitária que vive nas margens da cidade e a quem Johan Nilsen Nagel chegará a pedir casamento. Mas por que o faz? Está apaixonado pela lindíssima Dagny Kielland, uma jovem loira capaz de levar qualquer homem à loucura e ao suicídio: «Na minha opinião, a menina Kielland é tão provocadora que se sentiria extremamente lisonjeada se mais homens — quantos mais, melhor —, incluindo eu, pusessem termo à vida por sua causa» (p. 128). Não foi o que aconteceu ao desgraçado Karlsen? Mas Nagel não é como Karlsen. Ou será? Nagel não é um homem vulgar. Ou será? Ele comporta-se estranhamente, ora apático, ora eufórico, perde-se em longos monólogos a falar consigo mesmo, acusam-lhe contradições e incoerências. Por exemplo, como quando se refere a Liev Tolstói. Num momento, coloca-o a par de Jesus Cristo e de Immanuel Kant entre os grandes homens que a humanidade produziu. Num momento seguinte, em diálogo com a menina Kielland, diz não apreciar muito o escritor russo. Para logo de seguida se esquivar a considerações sobre o autor de Guera e Paz afirmando não se lembrar de ter falado com a menina Kielland sobre Tolstói. Mas falou, sabe que falou, e falou como se fosse Nietzsche a falar: «Os homens de letras conversam bem, mas os tubarões do intelecto, os super-homens, os líderes espirituais montados a cavalo têm de parar e de procurar nas suas mentes quando o nome de um homem «verdadeiramente» grande é mencionado» (p. 43). 
Também Nietzsche, perante a mediocridade reinante, poderia ter gritado: «revolta-te contra esta rectidão arrogante!» (p. 77). Ou exclamar em pura euforia: «Abaixo a tristeza!» (p. 161). Ou, mais relevante ainda, concluir num sobressalto de amargura e de confusão: «O que é que as pessoas sabem realmente sobre a vida? Inserimo-nos na linha, seguimos o padrão estabelecido pelos nossos mentores. Tudo se baseia em assunções, e até o tempo, o espaço, o movimento e a matéria não passam de suposições. O mundo não tem nenhum novo conhecimento a fornecer, aceitando simplesmente o que lá está» (p. 242). Descrente, com tendência a sentir-se deprimido, Nagel pode estar louco. A determinada altura, uma visita surpreendente sugere isso mesmo. Nagel é louco. A sua loucura consiste, antes de mais, na ausência de filtros entre o que pensa e diz. Mesmo quando aparenta calculismo, simula um domínio das situações que na realidade não possui. No fundo, a sua loucura resulta de uma nítida e lúcida consciência do mundo e do lugar que a maioria das pessoas nele ocupa. A pequena cidade costeira da Noruega é apenas o microcosmo de uma imensa massa humana. À margem, fica o quarto número 7 onde Johan Nilsen Nagel se instalou quando ali aportou no dia 12 de Junho de 1891. 

UM ESTUPOR MORAL CHAMADO GENTIL

(…)
As afirmações de Gentil Martins sobre homossexualidade, que o médico equiparou ao sadomasoquismo e à tendência para a automutilação, são de uma violência e insensibilidade muito pouco cristã num católico praticante, e também irresponsáveis, tendo em conta o prestígio do cirurgião pediatra, mas quem as tentar rebater invocando a evidência científica descobrirá que se enfiou numa armadilha

Segundo a psiquiatria moderna, as afirmações de Gentil Martins estão desactualizadas há 44 anos, tomando por marco 1973, ano em que os psiquiatras norte-americanos deixaram de considerar a homossexualidade uma patologia. A classificação da homossexualidade como doença só trouxe sofrimento ao mundo, das terapias traumáticas e inúteis ao reforço de um estigma social ancestral. Quando se passou a considerar a homossexualidade apenas como uma das várias orientações sexuais possíveis de um espectro natural, aumentou o bem-estar dos homossexuais sem qualquer prejuízo para os restantes cidadãos.
(…)
Mas seria insensato partir para uma discussão de contornos epistemológicos sobre o que é a evidência científica e como se gera consenso em ciência seria insensato, tendo em conta o nível do preconceito e os argumentos primários com que a posição do médico está a ser defendida nas redes sociais. Esta é uma conversa demasiado importante para ser iniciada por Gentil Martins ou o semanário Expresso, que o foi entrevistar sabendo perfeitamente a polémica estéril que iria gerar a custo zero, óptima para o tráfego online e a tiragem do jornal; enviar um repórter à Tchechénia para cobrir as perseguições aos homossexuais seria muito menos rentável

(…)

No Ouriquense, aqui. O sublinhado é meu.

domingo, 16 de julho de 2017

EXERCÍCIOS REAIS


Eu não gostava de ser rei.
Os reis praticamente
não têm vida própria. Têm sempre
que ter juízo, têm sempre que
prestar atenção. E não se pode estar sempre
com atenção. Sempre a cumprimentar.
Máquina de cumprimentos. Máquina
de apertar mãos. Não pode calçar
quaisquer sapatos. Ele bem queria
os azuis. Mas não pode. Porque tem
de calçar os castanhos. Houve alguém
que inventou isto. Tomam conta
do rei. E também ele
toma conta de si. Para não
sujar a camisa. Tem logo que
vestir outra. Da reserva.
Camisas de serviço. Tem à mão
a reserva. Nem uma pedrinha
pode ter na sopa. No entanto,
uma vez encontrou uma
no puré de legumes. O cozinheiro
ficou tramado. Não o tramem. No fundo,
o rei sentiu-se feliz por encontrar
uma pedra no puré de legumes.
Não tinha ideia de encontrar
fosse o que fosse no puré de legumes.
E logo uma pedra! Até que enfim,
alguma coisa lhe aparecia na sopa.
Enfim, alguma coisa. Aconteceram
coisas. É certo que quase cuspiu 
um dente. Esteve quase
para partir um dente. E
afinal não partiu. Ficou
a abanar, mas ficou lá.
Chamaram o cozinheiro.
Mostraram-lhe a pedra.
Dias a fio o pobre cozinheiro
andou mesmo desesperado.
Ainda bem que nada de mal
aconteceu. Rapidamente tudo
foi esquecido. Esqueceram.
Este caso também. 
E não se falou mais nisso.

Endre Kukorelly (n. 26 de Abril de 1951, Budapeste, Hungria), in Um Jardim de Plantas Medicinais, tradução colectiva (Mateus, Abril de 1995) revista, completada e apresentada por Fernando Pinto do Amaral com a colaboração de Mária Démeter, Quetzal Editores, Janeiro de 1997, pp. 22-23.

sábado, 15 de julho de 2017

#100



   Com 44 anos celebrados no passado dia 11 de Julho, Andrew Bird mantém-se incorruptível na missão de fazer boa música. O primeiro registo em nome individual data de meados da década de 1990, sendo mais de uma dúzia os que se seguiram sempre com qualidade acima da média. Bird é um músico excepcional, invulgarmente apoiado num violino que percorre géneros musicais diversos com um desembaraço impressionante. Are You Serious (2016) prossegue na linha folk rock, não enjeitando ritmos groovy em temas como Capsized e Truth Lies Low, ou enveredando por uma pop e por um rock mais imediatos em Are You Serious e Valleys of The Young
   O violino em pizzicato e o assobio são imagens de marca que não foram abandonadas, desempenhando neste álbum de contornos intimistas um papel quase identitário. O pássaro da capa denota o sentido de humor de Bird, confirmado em muitas das letras deste disco que, a espaços, são assaltadas pelas experiências pessoais da paternidade e do casamento. A guitarra eléctrica, ora mais discreta, ora mais expressiva, é outra presença relevante, nomeadamente em canções que resultam da conjugação de diferentes melodias e ritmos. 
   Sirva de exemplo o dueto com Fiona Apple em Left Handed Kisses como um momento alto de Are You Serious, evocativo do folk-blues que tantos e tão bons escritores de canções tem dado à música norte-americana:




FALA JOHAN NILSEN NAGEL

   Poetas! Oh, sim! Poder-se.ia dizer que haviam penetrado as profundezas do coração humano. Quem eram esses seres presunçosos que tinham sido suficientemente astutos a ponto de adquirirem tal influência na vida contemporânea? Eram uma comichão, uma crosta na sociedade, pústulas purulentas que tinham de ser continuamente vigiadas e cuidadosamente tratadas para não rebentarem. Sim, tinha de se fazer um grande espectáculo com os poetas, sobretudo os mais estúpidos e os parvalhões mais insensíveis. Se não se fizesse, eles partiriam e iriam fazer cenas para o estrangeiro! Céus, que farsa aquilo era!


Knut Hamsun, in Mistérios, trad. João Reis, Cavalo de Ferro, Setembro de 2013, p. 174.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

KARMA



Passei o dia a reler Knut Hamsun e a ouvir Andrew Bird, 
corri a baía de São Martinho do Porto de sul a norte em busca de um amigo que não encontrei, 
entrei num tasco para comprar tabaco e beber café, 
vi o pôr-do-sol da varanda de casa, 
não fui à água, 
escrevi um poema terrível para eventual novo livro, 
ainda folheei uma almofada de ervas frescas em busca de índios, 
mas nada no mundo me queria hoje, 
creio cada vez mais firmemente no Karma, 
que tudo quanto me acontece é merecido e devido, 
sobretudo o que não me acontece, 
tudo quanto não me acontece é literalmente resultado da minha inacção, 
logo, inteiramente merecido. 

EPIFANIAS #25

25

   O rápido banho de luz terminou, mas permanece, qual conjunto de diamantes, entre os arbustos do pátio onde um eflúvio surge da terra negra. As raparigas estão na colunata, uma companhia de Abril. Vão deixar o abrigo, em muitas um olhar dúbio, com a cavaqueira de botas bem arranjadas e o belo resgate das anáguas, debaixo de sombrinhas, arsenal ligeiro, apoiados em ângulos astutos. Regressam ao convento — corredores recatados e dormitórios simples, um rosário branco de horas — tendo escutado as promessas justas da Primavera, essa embaixatriz bem agraciada. . . . . . .
   No meio de um país varrido pela chuva fica um alto edifício plano, com janelas que filtram a obscura luz do dia. Trezentos rapazes, barulhentos e famintos, sentam-se a comer em longas mesas bife guarnecido com gorduras saudáveis e vegetais que ainda são patente da terra.
  
James Joyce, in Shorter Writings
Versão de HMBF. 


UM GRANDE POETA

Sabes o que constitui um grande poeta? É uma pessoa sem vergonha, incapaz de corar. Sujeitos vulgares têm os seus momentos em que saem de si mesmos e coram de vergonha; mas não o grande poeta.

Knut Hamsun, in Mistérios, trad. João Reis, Cavalo de Ferro, Setembro de 2013, p. 40.

SHOWDOWN (1973)


   O último filme de um genuíno produto de Hollywood. George Seaton (n. 1911 – m. 1979) fez carreira nos musicais e nas comédias românticas, antes de ter escrito para os Irmãos Marx, arrecadou dois Oscars como melhor argumentista por The Country Girl (1954) e Miracle on 34th Street (1947), estreou-se na Broadway em 1944 sem grande sucesso. Há quem considere sobrevalorizado o seu legado, há quem se oponha considerando as preocupações com o público e os sucessos de bilheteira. Airport (1970) é ainda hoje um dos mais lucrativos filmes de sempre. A carreira como realizador terminou com Showdown/O Duelo (1973), obra menor para actores maiores. Rock Hudson e Dean Martin são as estrelas da companhia, mas nem o primeiro tem nada que ver com o Jordan ‘Bick’ Benedict Jr. de Giant (1956), nem o segundo presta a mínima homenagem ao Dude de Rio Bravo (1959). A relação de George Seaton com o western não era ingénua à época. Foi co-produtor do excelente The Tin Star/Sangue no Deserto (1957), de Anthony Mann. Numa fase muito incipiente da carreira emprestou voz a The Lone Ranger num programa radiofónico, reclamando para si a criação do famoso grito de guerra "Hi-yo, Silver!" No entanto, Showdown acaba por ser uma despedida das salas de cinema demasiado sentimental e algo frouxa.
   Martin e Hudson são velhos amigos de infância, separados em idade adulta pelo amor a uma mesma mulher. A separação faz-se sem rancor nem feridas, como num divórcio amigável. Martin, no papel de Billy Massey, é o mais rebelde dos dois. É ele quem deixa para trás a quinta construída com o amigo Chuck Jarvis e se põe a caminho do México. O filme começa com Massey envergando a estrela de xerife enquanto transporta um prisioneiro numa viagem de comboio. Entulho amontoado na linha obriga a uma paragem, dando-se então um assalto. Não há resistência, tudo acontece com uma tranquilidade estranha aos westerns desde The Great Train Robbery (1903). Subitamente apercebemo-nos de que Massey não é xerife, está disfarçado para um baile de Carnaval improvável. Os passageiros colocam todos os bens e armas na sua mão, ele agradece com mordomia e põe-se na alheta. O tom de comédia ligeira, caro a George Seaton, percorrerá praticamente todo o filme, em diálogos repletos de gags inofensivos e de situações cómicas anódinas. Puro entretenimento.
   O que Billy Massey não sabe é que neste regresso às terras de onde partiu terá de confrontar o seu velho amigo Chuck. A ironia está em que este foi realmente nomeado xerife na cidade que viu ambos crescerem juntos. Durante a perseguição, os dois divertem-se num jogo de gato e de rato sem consequências dramáticas para nenhum dos lados. As artimanhas de um não ludibriam o outro, são crianças crescidas perdidas em brincadeiras de adultos, atravessadas por memórias que nos surgem em sucessivos flashbacks. Este jogo das escondidas só ganha algum interesse na sequência final, aquela que garantirá a Showdown um lugar na memória do público. No decorrer de uma trovoada seca, uma árvore é atingida por um relâmpago gerando um incêndio na floresta. Massey segue na direcção do incêndio, numa derradeira tentativa de despistar Chuck. O cavalo amedronta-se e foge, Massey fica apeado no meio do fogo. Já debaixo de chuva, no meio de um cenário de cinzas e de madeira queimada, Chuck avista o corpo carbonizado do cavalo de Billy. No seu rosto percebemos que teme o pior. Mas Massey conseguiu proteger-se, sobreviveu para o duelo final. Não será propriamente um duelo, já que os dois acabarão juntos, a protegerem-se um ao outro contra os pistoleiros com quem Massey havia colaborado no assalto ao comboio. Esta reviravolta não é ocasional e o desfecho será o único momento verdadeiramente trágico neste western mais dado ao cómico.

   Assim como George Seaton se despediu do cinema com este filme, Dean Martin despediu-se dos westerns. Também estes factos laterais oferecem a Showdown um certo interesse. O resto é, como se diz no trailer, a game of hide and seek. O que não se diz é que por detrás deste jogo está uma máquina de entretenimento, de puro entretenimento, desinteressada dos elementos dramáticos que apelam à reflexão e das grandes narrativas trágicas que obrigam o pensamento a exercícios limite de dúvida acerca de uma axiologia que desde tempos remotos deu forma à humanidade e desde que há cinema o western interroga. 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #14



   A humildade obriga-me a confessá-lo: sou consumidor envergonhado de música dita erudita, nomeadamente no que concerne a tudo o que tenha que ver com Ópera e afins. Mas se me comovi como nunca com Tom Hanks a explicar La mamma morta a Denzel Washington no filme Philadelphia, e se em miúdo metia a tocar com frequência o Bolero de Ravel, e se Old Spice foi o primeiro after shave que usei por causa de um anúncio ao som de Carmina Burana, então talvez exista em mim um apelo inexplorado.
   A mais famosa cantata do alemão Carl Orff (1895-1982) é um caso sério de popularidade. Composta em 1936, foi pela primeira vez apresentada em Frankfurt, a 8 de Junho de 1937, no auge do regime nazi. O sucesso imediato levou a que sobre Orff pesasse para o resto dos seus dias o anátema de ter colaborado com os apaniguados de Hitler, embora o próprio tenha desmentido tais simpatias quando mais tarde se defendeu ao declarar amizade profunda pelo resistente Kurt Huber e pelo judeu refugiado Erich Katz. Não admira, porém, que os discentes de Goebbels tivessem admirado o tom triunfalista de Fortuna Imperatrix Mundi.
   Carmina Burana faz parte de uma trilogia intitulada Trionfi, onde se incluem Catulli Carmina e Il Trionfo di Afrodite.  Orff seleccionou 24 textos de uma colecção de cerca de 200 manuscritos guardados no mosteiro de Benediktbeuern, no sul da Baviera, datados do século XIII e sobre os quais recai certo mistério. A base da selecção foi a recolha organizada, no ano de 1847, pelo famoso filólogo Johann Andreas Schmeller. A tradução manifesta o lado heterodoxo dos textos, nos quais detectamos uma celebração da vida mais pela sensualidade do que pela espiritualidade. In Taberna Quando Sumus é um belo exemplo dessa heterodoxia.
   Na interpretação conduzida pelo austríaco Franz Welser-Möst, com a soprano Barbara Hendricks a brilhar, ressalta a simplicidade de uma música apoiada nas linhas de percussão que mantêm o ritmo e relegam para segundo plano as questões melódicas. O fascínio de Carl Orff pelas canções do folclore bávaro, pela ópera italiana, pela música coral, assim como preocupações pedagógicas inerentes à sua actividade com crianças, permitiram-lhe alcançar uma capacidade de comunicação capaz de cativar até um néscio como eu:




POEMAS QUOTIDIANOS

Numerados de 1 a 100, os Poemas Quotidianos de António Reis (n. 1927 – m. 1991) foram escritos entre 1952 e 1962. É um período marcante na história da poesia portuguesa, nomeadamente por nele encontrarmos os ecos do chamado presencismo, ou da segunda vaga do modernismo, afrouxando face à imposição do neo-realismo e subsequentes respostas vanguardistas dos movimentos surrealista e experimental. Reis não foi poeta de um só livro, mas acabou por submeter parte da obra ao olvido em prol de um conjunto de versos que quis serem os seus. Assim sendo, os Poemas Quotidianos são o livro de António Reis. Seria pouco dizer que em boa hora as Edições Tinta-da-china o recuperaram, pois é da mais elementar justiça que o tenham feito. As palavras de Manuel António Pina na cinta que acompanha esta edição são clarificadoras da influência que estes poemas terão exercido, ainda que essa influência não seja declarada ou assumida como facilmente seria tivesse este pequeno grande livro o reconhecimento que merece. Acompanhados de um prefácio de Fernando J.B. Martinho e de um posfácio do realizador Joaquim Sapinho, ex-aluno de António Reis na Escola de Cinema do Conservatório, estes versos poderão agora chegar a um público que por certo se espantará com a mestria do seu autor.
   O primeiro sublinhado vai para o estado de depuração alcançado em cada poema, numa redução do máximo ao mínimo, muito à maneira do que encontramos em Carlos de Oliveira, com quem António Reis mantém relações de proximidade a um certo neo-realismo, não o da cartilha politicamente engajada, mas o de um humanismo proveniente das vivências subjectivas observadas ao lado de quem sofre e não do alto de uma torre de vigia. Nessa depuração, que por vezes também lembra a forma concisa do poema japonês, António Reis conquista para cada palavra o vigor do essencial. Daí que na sua poesia palavras como solidão, saudade, amor, piedade, desespero, não indiciem apenas estados de alma passageiros, mas encontrem uma expressão que as eleva à condição de matriz num tempo que supera as fronteiras do concreto, do tempo histórico, do tempo epocal e sociológico.
   Nestes poemas, essas palavras-chave penetram uma dimensão universal que lhes torna possível chegarem-nos hoje com o mesmo fulgor que tinham à partida, pois apesar de sabermos da “feira cabisbaixa” (O’Neill) em que surgiram, envoltas num manto de tédio, de tristeza e de pobreza, é do mesmo tipo a tristeza e o tédio quotidianos que a liberdade democrática destes nossos dias imprime no coração daqueles que não se conformam com uma vida reduzida à arte de produzir para satisfazer os apetites de consumo. Independentemente da realidade social, o realismo aqui em causa é das emoções que configuram o humano a partir do seu ramerrão doméstico e comezinho. Ou, como afirma Martinho no prefácio: «A conformada resignação dominante é, uma vez por outra, interrompida, e então surge a indignação, a acusação» (p. 13), denotando um olhar inconformado com a situação em que se encontra.
   Os Poemas Quotidianos não só captam o ar dos tempos, olhando pela janela as ruas da cidade, como são eles mesmos parte integrante desse estado de sobrevivência: «Poemas quotidianos // como o sol / como a noite // como a vontade de comer / e o sono // como as preocupações / e o amor // e porque saio à rua / e trabalho / diàriamente» (p. 27). A Clara a que se dirigem já não é apenas a musa inspiradora do nefelibata, é uma cúmplice da melancolia por detrás dos olhos do rapaz que observa os barcos, cúmplice dos domingos de espera, da nostalgia, da saudade. É também um resquício de beleza que mantém o ar respirável, um resquício de beleza ante a ira dos impotentes, dos cobardes, dos traidores, um resquício de beleza que nos envia para o lugar mais íntimo do amor: «Sei que choras / muitas vezes / sòzinha // e que lavas / o rosto // (ah onde / ando eu) // para a tua dor / não ser minha» (p. 84).
   Não nos inibamos de sublinhar o acontecimento editorial que é a recuperação desta obra de um poeta que também foi cineasta, de um cineasta que nunca deixou de ser poeta, apesar de, parafraseando Joaquim Sapinho, o seu cinema não continuar a sua poesia. «É outra forma de dor» (p. 122). Contudo, em parte a sua poesia anteviu o seu cinema. «Hei-de entrar nas casas», lemos no início de dois poemas deste belíssimo conjunto de 100. E entrou por portas diversas, provando mais uma vez que não é necessário muito palavreado para dizer o fundamental. Bastam as palavras certas. O labor de António Reis como poeta é o dessa busca ao encontro de uma precisão sem dúvida alcançada, capaz de dizer tanto com tão pouco:

23

Eu não voo
ando

quero que me oiçam

[QUANTOS NAVIOS]


62

Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos dos jardins

É feriado

Jogam as crianças correndo
atrás das
sombras
de pássaros

O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos

seduzidos

E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos

sobre mim


António Reis (n. 1927 - m. 1991), in Poemas Quotidianos (1967). «Em António Reis, toda a poesia emerge do silêncio – processo difícil, lento, convulsivo. Porque se trata dum silêncio tenebroso, feito de cegueira e rouquidão, feito de dias alucinadamente repetidos, feito de esgares apenas – esse silêncio de pedra que é o quotidiano de muitos» (Eduardo Prado Coelho, in Estudo-prefácio). «A poesia de António Reis, nascido, residindo e trabalhando na área do Grande Porto, é, como a de grande parte dos seus contemporâneos, uma poesia urbana. A sua relação com a cidade é, no entanto, uma relação ambivalente. Ama-a, não pela  sua dimensão, mas pelo seu carácter, pela sua naturalidade e ausência de qualquer nimbo de mistério, embora não deixem de o desgostar as «imperfeições e mágoas» que nela sofre. Gosta de lhe percorrer as ruas, perto dos outros. Prefere andar a voar, contradizendo assim a imagem do poeta nefelibata que paira acima da realidade imediata e comezinha» (Fernando J.B. Martinho, in Prefácio a Poemas Quotidianos).

UM GRANDE PISTOLEIRO

   Johnny Guitar, de Nicholas Ray (1954), foi o último filme que vi com António Reis. Johnny é um grande pistoleiro, mas no filme não dispara um único tiro. Esta ideia, esta estética, era central para António Reis. Punha-se uma pergunta: se nunca dispara, como é que sabemos que é um grande pistoleiro? O segredo está no comportamento de Johnny. Ele antecipa todos os movimentos dos outros, inimigos e amigos; antecipa todos os seus próprios movimentos. Não quer disparar porque tem medo. Sabe que um tiro leva sempre a outro tiro e que a vingança não tem fim (aliás, a única vez em que dá um disparo no filme é para desarmar um jovem pistoleiro que não sabe o que faz com a sua arma...). Mas, voltando à pergunta, como é que sabemos em concreto que ele é um grande pistoleiro se não dispara? Johnny também é um grande virtuoso da guitarra, isso fascinava António Reis, mas o momento essencial para ele é um momento quase escondido na narrativa, quando no início chegam os antagonistas e Johnny consegue acalmá-los conversando, mas no momento crítico há um acidente e uma chávena vai cair do balcão do saloon e despoletar a violência. Sub-repticiamente apanha a chávena com um gesto do braço para trás. A surpresa deste anticlímax pára o crescendo da violência e a tensão desfaz-se. Inconscientemente, os antagonistas, e os espectadores, temem-no.

Joaquim Sapinho, in A Narrativa das Sombras, posfácio a Poemas Quotidianos, de António Reis, Edições Tinta-da-china, Julho de 2017, pp. 120-121.

O CÁBULA

Há dois ou três programas na televisão que vejo frequentemente. Um deles é o Governo Sombra. Por vezes, têm o mérito maior de me adormecer. Para quem sofre de insónias é sincero elogio afirmá-lo. Depois sirvo-me dos truques da televisão digital e volto ao programa a partir do ponto onde as pálpebras deixaram de ter memória. No Governo Sombra tenho de gramar com o João Miguel Tavares, o mais agitado dos três entertainers de serviço. RAP puxa à piada, Mexia à sensatez, Tavares à chicana. Não tem mal, oferece ao painel uma certa diversidade e aquela vivacidade que vem dos tempos do Independente e fez escola junto da direita mais progressista (se é que me faço entender). Já as crónicas, passam-me ao lado. Raramente conseguem levar-me até ao fim. Veja-se este exemplo fresquinho colocado entre parêntesis: (Passos Coelho fez o melhor discurso em muito tempo…). Quem quer continuar a ler isto depois de ter sido revelado que parte desse eloquente discurso foi sacado nos comentários facebookianos de Poiares Maduro? Estará Tavares a dizer-nos sub-repticiamente que o melhor Passos Coelho é aquele que copia pelo colega do lado?